Nascemos ou tornamo-nos intraempreendedores?

Eis uma questão inquietante sobre o conceito de perfil do intraempreendedor. Será que nascemos já com traços e características que podem ser favoráveis à nossa senda empreendedora ou será que somos mais o produto de uma construção de competências que podem (e devem) ser desenvolvidas ao longo da vida? Ou, para trazermos mais complexidade à conversa, será o perfil empreendedor o resultado de uma fusão entre personalidade e skills? Esta reflexão assenta no perfil do indivíduo, culturas organizacionais à parte.

 

Por Rita Oliveira Pelica, chief Energy officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

Desmistificando a ideia do “tens tanto jeito para empreender”, o que a ciência nos diz é que nesta equação existem variáveis mais fixas, relacionadas com a personalidade – e que podem “interceder” a nosso favor, e outras há (mais flexíveis) que podem ser melhoradas, ligadas ao desenvolvimento de competências. O que está alinhado com o conceito de mentalidade de crescimento (growth mindset), cunhado por Carol Dweck.

Já existem instrumentos científicos (assessments) que permitem fazer este diagnóstico, não só do ponto de vista individual, como também para equipas. É uma avaliação que é feita em vários parâmetros, face a uma norma para empreendedores e outra para gestores corporativos. Permite-nos perceber “onde estamos”, quais as nossas forças e pontos de melhoria, face a objectivos traçados do ponto de vista da gestão da carreira. Com este “raio-x” torna-se mais fácil desenhar um plano de desenvolvimento à medida, identificando as áreas a melhorar. Em nome de uma cultura de empreendedorismo, nas organizações.

Vejamos o que está em jogo. No que diz respeito a traços de personalidade, encontramos sete parâmetros para análise, que permitem evidenciar o lado empreendedor de um indivíduo – pensando numa escala de um a cinco, em que quanto mais elevado for este número, maior será a predisposição para empreender.

Independência: o desejo de se trabalhar com um alto grau de independência, com autonomia e, consequentemente, com responsabilidade.

Preferência por estrutura com pouca hierarquia: a preferência por trabalhar numa estrutura (organizacional) mais “achatada”, com espaço de manobra.

Inconformismo: a preferência para se agir de uma forma que seja única, questionando “o porquê das coisas” e perguntando “e se…?”.

Tolerância ao risco: a disposição de não abandonar uma ideia ou objectivo, mesmo que a probabilidade de sucesso seja baixa e tenha riscos associados (há que saber minorá-los!).

Orientação para a acção: a tendência para mostrar iniciativa, tomar decisões de forma rápida e ficar impaciente com o atingimento de resultados.

Paixão: tendência para encarar o trabalho com entusiasmo e paixão, ao invés de o encarar como aborrecido e sugador de energia.

Necessidade de realização: o desejo de atingir um alto nível de concretizações. No que diz concerne às competências associadas a uma mentalidade empreendedora, são também sete os parâmetros a ter em consideração. Utilizemos a mesma escala de Likert, de um a cinco (da menor para a maior capacidade).

Foco no futuro: a capacidade de se pensar para além do imediato e planear o futuro.

Geração de ideias: a capacidade de geração de novas ideias e de encontrar várias formas (e diferentes) de se atingirem os objectivos.

Execução: a habilidade de transformar ideias em acção, a capacidade de implementar as ideias.

Autoconfiança: a crença nas suas próprias habilidades, competências e talentos para alcançar objectivos e as metas traçadas.

Optimismo: a capacidade de manter uma atitude positiva sobre a vida e o mundo ao nosso redor.

Persistência: a capacidade de se recuperar rapidamente das frustrações e de se manter persistente não obstante os obstáculos e as adversidades.

Sensibilidade interpessoal: o nível de sensibilidade (e bom senso?) e preocupação com o bem-estar daqueles com quem se trabalha; claramente um item no qual os gestores corporativos têm de apostar cada vez mais, alimentando o sentido de pertença e promovendo um activo networking interno.

Em 13 dos 14 parâmetros apresentados, a norma dos empreendedores apresenta um valor superior ao da norma dos gestores corporativos. Mais liberdade, mais criatividade, mais risco, é o apanágio dos empreendedores. Fica mais alta a fasquia, para os intraempreendedores, no tema da sensibilidade interpessoal – a necessidade de dar atenção às pessoas, de envolver os vários stakeholders da organização. A prática da arte da influência.

Faz(-lhe) sentido? A forma como pensamos e agimos impacta os resultados que atingimos. Qual é o seu perfil? O que pode ser melhorado? Pense e aja como um intraempreendedor.

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