Nuno Troni, director da Randstad Professionals: «Não vai ficar tudo bem»

Human Resources
6 de Novembro 2020 | 11:11

Desde o início da pandemia que temos ouvido e lido, quase até à exaustão, que vai ficar tudo bem. Se poderá ser verdade em relação ao fim da pandemia, com o aparecimento de uma vacina ou de um qualquer tratamento mais eficaz, não me parece que seja possível isso acontecer em relação à economia e, especialmente, aos milhares de profissionais que viram ou vão ver os seus rendimentos reduzidos ou os seus postos de trabalho eliminados.

 

Por Nuno Troni, Director – Professionals, Outplacement, Human Consulting, R.P.O., da Randstad Portugal

 

É certo que não é uma novidade, já passámos por crises económicas e a mais recente está ainda bem presente na memória de todos. Existem, contudo, algumas diferenças essenciais, sendo a primeira na escala e dimensão e a segunda na transformação das empresas para employee centric organizations.

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Nos anos que antecederam a pandemia, assistimos a um crescente número de empresas a discutir e implementar conceitos de employee centricity, desenvolvendo estratégias de employer branding para atrair e reter talento e assumindo o factor humano como um elemento central da sua estratégia. O colaborador estava no centro das preocupações da empresa, situação naturalmente encorajada por bons resultados por parte das empresas e por um crescimento económico positivo. Com a pandemia, a prioridade continuou a ser as pessoas, mas no sentido da segurança e do bem-estar dos colaboradores, com todos os esforços concentrados em implementar práticas de trabalho remoto e de comunicação, de forma a não deixar ninguém para trás.

Contudo, e findo o confinamento, deparamo- nos com o resultado deste lockdown: uma colossal diminuição do PIB (Produto Interno bruto), desemprego a crescer rapidamente e diminuição, em vários sectores de actividade, de facturação e perda de volume de negócio, em vários casos muito acima de 70%.

Em surveys que conduzimos recentemente, as perspectivas são tudo menos animadoras: mais de 60% das empresas assumem que a diminuição de volume de negócios se vai manter nos próximos tempos, 75% prevêem contratar menos do que planearam no início do ano, 65% afirmam que terão de vai reduzir a estrutura actual e uns impressionantes 85% vão cancelar ou reduzir drasticamente o budget para formação e desenvolvimento.

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Um desafio para as empresas será a forma como vão gerir a óbvia e legítima necessidade de racionalizar a estrutura, em especial a diminuição de custos, que acarreterá despedimentos, congelamento de salários e de investimentos. Tudo o que for considerado não prioritário vai ser impactado, mas como é que estas decisões se vão compatibilizar com o posicionamento de employee centricity?

No fundo, as empresas colocaram os seus trabalhadores como o pilar da organização, preocuparam-se com a sua segurança, com a sua retenção e desenvolvimento, com a sua felicidade, e agora vêem-se a braços com a necessidade de eliminar vários postos de trabalho.

Os efeitos já são visíveis no mercado de trabalho. Os despedimentos em massa já estão aí e a pressão nos salários é evidente nos processos de recrutamento em curso. No lado dos candidatos, o índice de confiança também está em baixo (verificamos um número recorde de ofertas recusadas) e o número de ofertas de emprego no mercado é dos mais baixos do últimos (longos) anos.

E as más notícias não terminam por aqui. Em 2008, discutia-se a digitização, mas que ainda não era uma realidade. Nesta crise, o marketing digitial e e-commerce foram mais importantes do que nunca, sendo que o número de profissionais sem competências digitais é ainda muito elevado e, infelizmente, tenho muitas dúvidas de que os programas de reskilling e upskilling sejam suficientemente rápidos para a maioria destes profissionais.

Em resumo, empresas com perdas históricas, inúmeras incertezas no futuro, missmatch de competências e número recorde de más notícias. Como se diz num dos sectores mais afectados por esta crise, brace for impact.

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Este artigo foi publicado na edição de Outubro (nº. 118) da Human Resources, nas bancas.

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