
O futuro dos escritórios: mais do que um espaço físico, uma vantagem competitiva
Por Mariana Rosa, head of Office da Dils Portugal
Depois da pandemia, muitos acreditaram que o teletrabalho ditaria o fim dos escritórios tal como os conhecíamos. Hoje, a narrativa é diferente: já não se coloca a questão de saber se regressaremos ao cenário pré-pandemia, mas sim de que forma o mercado de escritórios se conseguirá reinventar face às novas exigências e formas de trabalhar.
No primeiro semestre de 2025, o mercado de escritórios em Lisboa registou uma ocupação de 83.835 m², menos 34% face ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o Dils Recap, uma iniciativa de business intelligence da imobiliária Dils. Estes números revelam uma quebra, apesar do ligeiro aumento da procura no segundo trimestre do ano. A instabilidade e incerteza económica e geopolítica ajudam a explicar este compasso de espera, já que as empresas preferem, naturalmente, adiar grandes decisões de investimento ou de relocalização.
Mas nem tudo são sinais de retracção, muito pelo contrário: o pipeline actual ascende a cerca de 188.000 m² de novos escritórios em construção, dos quais 67% já se encontram pré-arrendados. Este dado mostra que, apesar do arrefecimento conjuntural, a procura deverá manter-se resiliente. Outro indicador é a valorização das rendas prime, que atingiram os 30 €/m²/mês. Este crescimento deve-se sobretudo à entrada de activos de maior qualidade e à disposição das empresas em pagar mais por espaços que deixaram de ser meros locais de trabalho, assumindo-se como instrumentos-chave na atracção e retenção de talento.
Além da sustentabilidade, os requisitos das empresas para os seus espaços de trabalho tornaram-se cada vez mais exigentes e padronizados. O que antes era visto como tendência, hoje é mandatório. Certificações ESG como LEED e BREEAM deixaram de ser um diferencial e passaram a ser um critério de selecção. A localização e acessibilidade, a tecnologia e automatização dos edifícios, bem como o foco no bem-estar e qualidade de vida dos trabalhadores, são elementos centrais na decisão de ocupação. As empresas procuram áreas amplas por piso, luz natural, estacionamento privativo, proximidade a transportes públicos e uma oferta robusta de amenities: ginásio, zonas de relaxamento, auditórios, salas de conferência, rooftops, cafetarias e restaurantes. Estes espaços não só reflectem a cultura organizacional, como também funcionam como extensões da marca e da proposta de valor para os colaboradores.
Hoje, o escritório é muito mais do que quatro paredes e um tecto. Os escritórios são palcos de colaboração, inovação e bem-estar. Num mercado de trabalho tão competitivo, a qualidade do espaço tornou-se uma vantagem estratégica. Em Portugal, observa-se também uma maior valorização de edifícios sustentáveis, onde a eficiência energética, a descarbonização e as certificações internacionais são já critérios decisivos. Esta tendência traduz tanto a responsabilidade ambiental das empresas como a resposta às expectativas de trabalhadores cada vez mais atentos ao posicionamento das organizações.
A tudo isto acresce o modelo híbrido, que veio, certamente, para ficar. O teletrabalho não eliminou a necessidade de escritórios, mas redefiniu crucialmente o seu papel. O grande desafio das empresas é encontrar o equilíbrio entre a flexibilidade e a presença, criando ambientes que motivem, aproximem e inspirem as suas equipas. Quem não o conseguir arrisca-se a perder não só colaboradores actuais, como também a capacidade de atrair novos talentos, especialmente os mais jovens.
O mercado de escritórios em Portugal não voltará ao que era antes da pandemia, e ainda bem. Está, sim, a transformar-se numa nova versão de si próprio. Mais do que a ocupação de metros quadrados, o que mais importa agora é a forma como os escritórios reflectem o propósito e a cultura das empresas. O futuro não poderá passar por um regresso ao passado, mas por uma reinvenção que marcará o próximo capítulo do mercado de trabalho em Portugal.