Da Bahia para a sala de reuniões: a liderança humanizada de Ivete Sangalo

Por Carla Caracol, directora de Recursos Humanos do Grupo Renascença Multimédia

 

Para quem me conhece, a declaração de interesse inicial deste artigo, não é minimamente surpreendente: Sou fã, há cerca de 30 anos, da Ivete Sangalo! Mas este texto não pretende ser uma ode à música, a uma artista e, muito menos, aos meus gostos pessoais.

O mesmo surge porque, num dos muitos dias mais complicados, em que tudo questionamos, em que nos apetece baixar os braços, me lembrei do quanto a minha playlist de Ivete me dá energia e me muda, positivamente, o humor e me induz a coragem para enfrentar as dificuldades. Aliás, se me virem a conduzir, a cantar, a plenos pulmões, não estranhem. É apenas a minha forma de me energizar, ao contrário da prescrição médica de meditação ou yoga.

Numa dessas viagens, tive um momento de clarividência pessoal que vai muito para além do estilo musical (para quem não sabe, Axé Music). Constatei que, do que conheço da Ivete Sangalo, ela é um verdadeiro exemplo de liderança humanizada, numa simplicidade desconcertante. E não é preciso invocar bibliografia erudita para o comprovar. Basta observar.

Acredito que muitos dos que se atreveram a ler até aqui, mesmo sendo fãs de rock, heavy metal, música clássica, popular, jazz ou outros estilos não mencionados, foi porque não julgam o álbum pela capa, dão uma oportunidade ao conteúdo. E esse é o ponto de partida para o paralelismo com o contexto corporativo: ver para além das aparências, ouvir com atenção, liderar com empatia.

Para mim, a Ivete Sangalo representa a humanização das relações que todos almejamos ter nas organizações através da sua liderança de proximidade, socorrendo-se de sete princípios de actuação basilares, sobre os quais deveríamos, pelo menos, refletir, mas sobretudo viver e liderar mais:

 

– Princípio 1 – A inconformidade com o sucesso: de “Bom” a “Excelente”

Os seus álbuns, produto de trabalho em estúdio com demais músicos, são best sellers e, só por si, excelentes. Contudo, quando os hits são tocados ao vivo, com inúmeras adaptações, inclusive de estilo, de tom, de ritmo, as músicas ganham, normalmente, ainda mais vida, mais animação, ficam ainda mais bonitas. Muitas vezes, aquilo que conhecemos das nossas pessoas, a sua versão mais “arrumadinha”, é altamente limitativa. Temos de procurar conhecê-las na sua plenitude, se assim nos permitirem, desafiando e dando oportunidades a mostrar outras facetas do seu potencial.

Temos de nos atrever a deixá-los trabalhar sobre as versões mais comuns, mesmo as bem-sucedidas, e deixá-las inovar sobre a base, criando e cocriando, em equipa, alinhando o que se faz com o que se sente que se pode, deve e consegue fazer. Na Gestão de Pessoas, não raras vezes esquecemo-nos que há processos de melhoria contínua, de controlo interno e de gestão de risco que nos permitem empoderar o potencial que temos “em casa”, procurando maximizar qualidade, eficácia e eficiência, mas, acima de tudo, mobilização de vontades e motivação. A autonomia, a flexibilidade, o aprender com o outro, o testar em novos contextos, muitas vezes é a chave para um sucesso ainda mais poderoso;

 

– Princípio 2 – Uma Comunicação empática, simples e emotiva

Comunica de forma simples, despretensiosa, por todos inteligível, não procurando alimentar o seu ego, nem promover o seu status social. Quantas vezes nas nossas comunicações, mesmo que dirigidas a públicos heterogéneos, utilizamos termos técnicos herméticos e rebuscados que quase implicam a utilização de um dicionário? O objectivo não é passar a mensagem de forma objectiva e transparente? Para quê complicar? A simplicidade gera empatia e proximidade, pois todos se identificam e se sentem respeitados e importantes. Muitas vezes a luz do palco induz a que a essência se transmute, esfumando-se a verdade e a força da linguagem em analogias e metáforas, estrangeirismos e outros tantos recursos semânticos que quebram a ligação emocional pretendida. A linguagem pode ser ponte ou barreira – cabe-nos escolher;

 

– Princípio 3 – A Partilha genuína e inspiradora da sua narrativa Pessoal

Faz questão de partilhar, com imenso orgulho, a sua origem humilde, as suas raízes, a sua terra natal e promove-a, sendo uma verdadeira embaixadora da Bahia, mas igualmente do próprio Brasil. Infelizmente, continuo a constatar que muitos dos que já atingiram o topo das organizações, escondem ou omitem o seu passado, como se estivessem eternizados naquela função. Isso cria a falsa sensação de que são posições inatingíveis e que, muitas vezes, nem vale a pena o esforço e sacrifício pessoais, pois a probabilidade de sucesso é mínima.

A partilha de narrativas pessoais, verdadeiras, de conquistas e perdas, de caminhos desbravados a sangue, suor e lágrimas, os nãos que se ouviram pelo caminho, os sins cujo discernimento imaturo ou a impulsividade levaram a trajetos sinuosos e dolorosos, as frustrações sentidas… tudo isso inspira! Provavelmente numa escala muito reduzida da plateia, mas se fizer a diferença para uma pessoa, já terá valido a pena.

O retorno na liderança é uma realidade. As histórias reias inspiram. Partilhar fragilidades é um acto de coragem e humaniza as relações Na música, o número de bilhetes vendidos num concerto e o som dos aplausos são KPI’s directamente avaliados. Nas organizações, teremos de ser mais pacientes, e não alicerçar esse storytelling apenas numa pessoa, pois, se nos ouvirmos mais, certamente muitos terão mensagens poderosas a partilhar.;

 

– Princípio 4 – Dar Protagonismo a outros, incentivando sinergias de Talento

Dá protagonismo a outros artistas, incluindo jovens talentos em início de carreira, assim como partilha palco com talentos já consagrados da música brasileira e mundial, mantendo a atitude, tratando-os da mesma forma generosa e humilde, não discriminando. Custa-me imenso ainda assistir a diferenças de tratamento nas organizações mediante aquilo que possa ser a categoria funcional do interlocutor ou partir do pressuposto de que a pessoa pode exercer apenas a sua função actual.

Pessoas são pessoas, para o bem e para o mal, em circunstâncias e contextos diversos que influem nos resultados. Contudo, apesar dessa condição transitória, não deixam de “ser”… nas organizações temos de olhar menos para o que “fazem” e mais para o que “são”. Falamos tanto na obsolescência das competências técnicas e na relevância das competências sociais e depois procuramos tudo menos “potencial em bruto”. E temos receio do “talento experiente”.

Temos de ser mais coerentes entre o que dizemos e o que fazemos. Tudo nesta vida é transitório, até a nossa posição… A liderança deve ser um acto de serviço e não de poder;

 

– Princípio 5 – A coragem de reflectir, agir e mobilizar para trabalhar sobre temas sociais

Não foge a assuntos difíceis e/ou controversos, dando a cara, em palco e em backstage, por franjas da população marginalizadas, discriminadas, vítimas de vários tipos de violência, procurando ter uma agenda de educação cívica e de responsabilidade. Quantos de nós os evitamos porque são constrangedores e desconfortáveis ou quantas vezes os delegamos, porque supostamente outros são mais experientes nesses assuntos ou porque temos de começar a delegar mais? E quantas vezes nos queixamos da aplicabilidade de legislação que procura apenas ser mais justa para com os mais desprotegidos?

Empurrar com a barriga nunca será solução para qualquer que seja o problema! Às vezes é preciso pôr sal na ferida para que o ardor nos obrigue a actuar e isso, normalmente, só acontece quando uma dessas situações nos “bate à porta”. A Ivete Sangalo consegue colocar na agenda pública estes assuntos sensíveis, enfocando-se muito na relevância da autoestima e da confiança, com grande ênfase nas mulheres, ainda hoje, em pleno século XXI, muitas vezes, relegadas para um segundo-plano, mas também porque são elas as principais educadoras das futuras gerações, onde se espera que estes temas já não façam parte das suas preocupações.

Falamos imenso em responsabilidade social, mas entendemos que quase tudo é responsabilidade do Estado, esquecendo-nos que este é constituído por todos nós, agentes da sociedade, o que inclui organizações e pessoas. Precisamos fomentar literacia cívica e um compromisso colectivo com a inclusão, a equidade e a consciência social;

 

– Princípio 6 – O caminho para a Felicidade nem sempre é fácil, mas com um sorriso é menos difícil

Com enorme sentido de humor, assume-se como é, brincando, com a maior leveza possível, com as suas fragilidades e vulnerabilidades, não se levando demasiado a sério. Não quero com isto dizer que seja irresponsável, apenas não dramatiza, exacerbando as dificuldades. Existem? Arregaça-se as mangas e, com alegria e emoção, enfrentam-se. Assisto quotidianamente a pessoas cabisbaixas, frustradas com a vida, insatisfeitas com as relações, a lamentarem-se sobre as suas carreiras, desejando ter um corpo mais fit… Mas o que estão a fazer para alterar esse sentimento? E será que estamos todos atentos a estes sinais, mesmo de quem nos é mais próximo?

Há que normalizar a incapacidade de se estar 100% feliz! Temos é que nos ajudar mutuamente a procurar sermos mais e melhores, tendo a capacidade de perceber que tudo é um caminho e, muitas vezes, longo e difícil, mas que é possível. Com imensa vontade, determinação e resiliência este torna-se mais aprazível;

 

– Princípio 7 – Agradecer sempre, começando hoje, porque o amanhã não é garantido

É agradecida a todos quantos a ajudaram e ajudam a ter o sucesso que tem. Não basta ser-se muito bom naquilo que se faz (e se é), é preciso rodearmo-nos de excelentes profissionais e pessoas, que nos amparam nas quedas, nos elevam nos pódios, se sentam ao nosso lado, mesmo que em silêncio, quando precisamos de estar com alguém de confiança. O sucesso que se obtém é de todo este círculo de amor que se constrói, alimenta, mantém e se agradece, diariamente. Falamos imenso em networking, no seu poder, mas este só é duradouro se verdadeiro porque orgânico, que não tem por base um interesse oculto ou instrumental. Importa ser verdadeiro nas relações e ser grato por estas, pois potenciam a alegria e mitigam o receio de ousar fazer mais e de ser melhor.

Sejamos todos mais Ivete Sangalo… sejamos o exemplo da liderança humanizada para que possamos ter relações humanizadas, respeitosas, próximas e de confiança, nas nossas equipas e, consequentemente, nas nossas organizações.

A banda sonora até pode ser outra, mas a pauta é a mesma: liderar com alma, amor e autenticidade.

Porque a liderança humanizada não se proclama, vive-se! Todos os dias.

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