
Quando nos escolhemos, a carreira avança
Por Joana Carvalho, autora do livro “Seja o CEO da sua Carreira”
No final de cada ano, não é o cansaço que pesa, é tudo aquilo que adiámos. As conversas que deixámos para “quando houver tempo”, as decisões que empurrámos por receio ou conveniência, os sonhos que mantivemos em banho-maria e, é neste acumulado de adiamentos que percebemos que a maior causa de estagnação de carreira não é falta de oportunidade, é a falta de autoescolha. Cada oportunidade perdida de nos priorizarmos é também uma oportunidade de crescimento que não se concretizou. Mas há uma boa notícia: se a ausência de escolha nos prende, a escolha é aquilo que nos liberta. E é aqui que começa um novo ciclo. Cada decisão consciente de nos colocarmos no centro da nossa carreira é um passo para alinhar o caminho profissional com quem realmente somos e com quem queremos tornar-nos. Esta consciência transforma não apenas a carreira, mas também a forma como nos sentimos, como nos relacionamos com os outros e como nos percebemos.
A carreira raramente estagna de uma só vez, vais se estagnando em micro decisões acumuladas ao longo do tempo. Donald Super (1990), nos seus estudos sobre o desenvolvimento vocacional, explica que a evolução profissional depende de consciência, intenção e ação alinhada com a nossa identidade. Quando permanecemos em lugares onde já não crescemos, confundindo estabilidade com pertença ou segurança, deixamos de avançar, mesmo continuando a “funcionar”. Este movimento sem progresso é invisível aos olhos, mas reflete-se na motivação, na energia e na perceção de significado no trabalho. Este afastamento silencioso de nós mesmos tem custos profundos: desgaste emocional, perda de motivação, sensação de vazio e frustração que se acumulam sem que muitas vezes tenhamos consciência. Edgar Schein (2010) reforçou que, quando nos desconectamos das nossas âncoras de carreira, aquilo que realmente nos move e nos dá sentido, perdemos força, energia e identidade. Por outro lado, quando as honramos, ganhamos clareza, direção e propósito. Saber quem somos e o que realmente queremos torna cada passo mais intencional e mais alinhado com a nossa visão de longo prazo.
É também por isso que, no livro Seja o CEO da Sua Carreira, da minha autoria e da Cristina Pimentão, sublinhamos que “ninguém constrói uma vida profissional com significado sem se escolher de forma consistente”. Ser o CEO da própria carreira é assumir as rédeas com coragem e lucidez, mas também com esperança, perceber que nunca é tarde para alinhar o caminho com quem somos e com quem queremos tornar-nos. Liderar-nos exige coragem, mas também gentileza, autoconhecimento e sem dúvida que exige também fé no processo, no que ainda não existe.
Douglas Hall (2004), ao falar sobre carreiras proteanas, lembra-nos que o impulso fundamental da carreira moderna é interno, não externo. Somos nós que decidimos a direção, o ritmo e o sentido, e isto é profundamente libertador: significa que, mesmo quando não controlamos tudo à nossa volta, controlamos sempre algo essencial, a próxima escolha, a decisão de priorizar-nos e de investir no que nos faz crescer.
Por isso, o final de ano deve ser mais do que um balanço de tarefas, deve ser um convite à reconexão connosco. Em vez de perguntarmos apenas “o que fiz este ano?”, devemos perguntar: “Onde e quando me escolhi? Onde e quando me esqueci? E onde e quando me quero escolher mais?”. Esta revisão permite perceber padrões, reconhecer conquistas, identificar onde cedemos protagonismo e planejar o próximo ano com intenção.
O futuro não nos pede perfeição, pede intenção; não pede respostas imediatas, pede clareza progressiva; não pede saltos gigantes, pede pequenos passos consistentes, mas nossos. Cada pequena escolha de nos priorizar é um gesto de poder sobre o nosso percurso e sobre a nossa vida profissional. Cada sim consciente ao que nos faz sentido, e cada não que dizemos ao que nos diminui, reforça a nossa capacidade de agir e impactar.
Se há algo que este ano nos pode ensinar é que nunca é tarde para recuperar ambições adormecidas, reconstruir prioridades, redesenhar caminhos. Nunca é tarde para nos escolhermos com coragem, respeito e convicção. Este exercício de autoescolha não é apenas sobre a carreira, é sobre a vida que queremos viver, sobre a energia que queremos sentir e sobre o impacto que queremos deixar.
E talvez seja essa a beleza do próximo ano (de todos os inícios de ano, de ciclos): a possibilidade real de fazermos diferente, de nos colocarmos no centro da nossa vida profissional sem culpa; de reclamarmos o protagonismo que muitas vezes cedemos por hábito, medo ou inércia; de criarmos uma carreira que não só funciona, mas que nos faz florescer, porque cada escolha consciente é um investimento em nós, no nosso crescimento e na nossa satisfação.
No final de cada ciclo, não é o peso do que faltou que importa, é a leveza de percebermos que, ao nos escolhermos, a carreira avança e nós também. A ação mais poderosa que podemos dar a nós mesmos, é a decidir que, no próximo ano, nos colocaremos em primeiro lugar, sempre que necessário, porque o nosso desenvolvimento, a nossa energia e a nossa motivação dependem disso.
Um excelente 2026 a todos! Sejam os CEO’s da vossa vida e da vossa carreira!