
Stand-up, intraempreendedores!
Quando penso em intraempreendedorismo, gosto de o imaginar como um acto sério e estratégico. Mas a verdade é que, nas adversidades do dia-a-dia, o intraempreendedorismo parece-se muito mais com um acto de stand-up comedy, uma divina comédia. E, por vezes, rir pode ser o melhor remédio…
Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs
Já repararam que o intraempreendedor, tal como o humorista, observa o quotidiano com uma atenção quase obsessiva? É nele que se inspira, apreciando os detalhes, os paradoxos, e também no nonsense das vivências diárias. Assim que pode, questiona, parecendo ser “politicamente incorrecto”, a um olhar mais convencional. É esta a lógica do setup: expor a premissa escondida que ninguém viu ou que “fez de conta” que não viu. E depois, de forma mais ou menos evidente, vem a punchline: a proposta diferente, o desvio criativo, o “e se tentássemos isto?”. A cultura que o entusiasma não é a das respostas prontas, mas a das perguntas persistentes. Por vezes até incómodas. Já Warren Berger nos lembrava, em “A More Beautiful Question” (2014), que as grandes transformações surgem quando alguém tem a coragem de perguntar “porquê?”, “e se…?”. Um (bom) comediante faz o mesmo, só que com risos no fim. Nesta metáfora da comédia, o improviso tem um papel central. Keith Johnstone, em “Impro” (2017), sublinha que improvisar não é agir de forma caótica; é criar condições para que ideias inesperadas possam emergir. Uma organização que valoriza o intraempreendedorismo precisa deste ambiente: abertura à ambiguidade, disposição para construir sobre as sugestões dos outros e a ausência de punição, mesmo quando uma tentativa não gera aplausos. Mas pode gerar novas possibilidades. Isto não é muito diferente de testar material novo, num palco pequeno, com mais ou menos espectadores: algumas ideias (piadas) funcionam, outras não – o que é certo é que todas fazem parte do processo criativo.
E como o humor é algo muito sério, importa trazer uma dose de seriedade a estas linhas. Se o público é hostil, ninguém arrisca; se o público é curioso e receptivo, arriscamos novas piadas, novas perguntas, novas soluções. Nas empresas, isso significa líderes que respondem com “continua” em vez de “isso não faz sentido”, e equipas que praticam algo próximo do question improv: uma dinâmica onde as ideias avançam porque alguém teve a coragem de começar com uma boa pergunta. Num espaço seguro, os colaboradores sentem que podem fazer perguntas, até as mais difíceis, propor mudanças e até “brincar” com o status quo e com as certezas instaladas. O humor, aliás, ajuda a desmontar hierarquias e a tornar o questionamento menos ameaçador: rir de processos desnecessários ou de rotinas absurdas é muitas vezes o primeiro passo para os redesenhar.
Do lado da cultura organizacional, tem de existir uma mudança cénica, que normalize o questionamento, valorize o processo criativo e não apenas o resultado – tal como no stand-up, as tentativas podem ser entendidas como protótipos. É preciso haver safe places, espaços e rituais de improviso, momentos nos quais as equipas podem explorar what ifs sem a pressão da convergência imediata. E last, but not least… tratar o humor, como todo o respeito, como uma ferramenta cultural, não para desvalorizar problemas, mas para trazer para “fora da caixa” eventuais pontos cegos.
Stand-up, colaboradores! Profissionalizem- se. Treinem. Observem, perguntem, sugiram novas ideias com a mesma coragem de quem sobe ao palco e arrisca uma piada nova. Mesmo sabendo que, às vezes, pode correr mal. Mas que também pode correr bem. E talvez a pergunta mais transformadora que uma organização possa fazer hoje seja: “será que estamos a criar um ambiente no qual as pessoas se sentem livres para experimentar novo material?”
Se a resposta for “sim”, preparem-se, porque as melhores ideias começam exactamente como as melhores piadas: com alguém a perguntar, meio a sério, meio a rir, “já repararam que…?”, não para arrancar gargalhadas, mas para criar possibilidades. É tempo de stand-up!
Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº.180) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.