Um elogio aos generalistas

Por Rui Coutinho, Executive Director for the Future, Nova SBE

Nos corredores das empresas mais inovadoras do mundo temos começado a ouvir um paradoxo cada vez mais recorrente: no entusiasmo por recrutar os melhores especialistas disponíveis, talvez tenhamos negligenciado um outro tipo de talento, mais difícil de definir, mais imprevisível na trajetória, mas absolutamente essencial num mundo de crescente complexidade: os generalistas.

Durante décadas fomos levados a acreditar que a profundidade era tudo e que quem se especializa domina. E é verdade: é o conhecimento especializado que sustenta a robustez técnica e operacional das organizações. Mas, à medida que os desafios que enfrentamos acontecem na intersecção entre tecnologia e ética, entre sustentabilidade e rentabilidade, entre dados e emoção (paradoxos, como tem investigado o Prof. Miguel Pina e Cunha), percebemos que é preciso ligar o que ninguém está a ligar.

É aqui que entram os generalistas. Profissionais que não seguem rotas lineares. Como escreveu David Epstein, no seu livro “Range”, são pessoas que transitam entre atividades, setores, interesses, e que combinam experiências díspares e mantêm uma curiosidade insaciável. Perante novas realidades e desafios, estas são as pessoas que perguntam não apenas “como funciona?”, mas “o que muda?”, “para quem?”, e “a que custo?”. São os que desafiam vieses, questionam pressupostos e estabelecem conexões mais complexas sobre realidades cada vez mais ambíguas.

Na minha opinião, é isso que faz dessas pessoas aceleradores naturais de inovação.

A crescente presença da tecnologia, da automação, da digitalização e da IA nas organizações reforça ainda mais esta minha convicção – porque quanto mais sofisticadas forem as ferramentas, mais humanas têm de ser as perguntas. Estes generalistas servem de bússolas críticas num tempo de disrupção.

Por exemplo:

Traduzem linguagem entre equipas técnicas e equipas de negócio: um generalista com background híbrido (por exemplo, em ciências sociais e experiência em projetos digitais) pode ser a ponte entre uma equipa de data science e a área comercial. Enquanto os especialistas afinam modelos preditivos, o generalista assegura que o modelo responde a uma pergunta de negócio concreta, evita enviesamentos na base de dados e antecipa como será interpretado e aplicado no terreno;

– Lideram processos de inovação transversal entre departamentos: num desafio de sustentabilidade, por exemplo, um generalista pode liderar um projeto que envolva operações, marketing, Recursos Humanos e jurídico. Sem ter de dominar tecnicamente cada área, é capaz de fazer a mediação entre perspetivas, alinhar objetivos e garantir que a solução final tem coerência estratégica, impacto social e viabilidade operacional;

– Reenquadram problemas mal definidos: Quando uma empresa enfrenta queda de vendas, um generalista pode evitar respostas automáticas como “falta publicidade” ou o “preço está alto”. Em vez disso, olha para os dados, o contexto cultural, as mudanças de comportamento do consumidor, e propõe hipóteses alternativas.

– Desenham estratégias de transformação com múltiplas variáveis em jogo: Num processo de transformação digital, um generalista com experiência em diferentes áreas (negócio, tecnologia, cultura organizacional) pode liderar a definição da estratégia de mudança. Consegue integrar a visão tecnológica com o impacto humano, entender as implicações legais e culturais em diferentes geografias, e antecipar resistências invisíveis;

– Criam novas linhas de negócio em zonas de oportunidade não exploradas: generalistas com curiosidade intelectual e sensibilidade para tendências emergentes conseguem identificar zonas cinzentas entre mercados. São fundamentais em processos de venture building, inovação disruptiva ou exploração de novos modelos de negócio, onde o conhecimento cruzado é mais valioso do que o domínio de uma só disciplina.

Importa sublinhar que isto não é uma guerra entre especialistas e generalistas – é uma chamada de atenção para a importância de criar organizações onde ambos têm espaço, reconhecimento e impacto; onde se valoriza não só quem constrói soluções, mas também quem interpreta contextos onde se percebe que o verdadeiro valor está em montar equipas cognitivamente diversas que combinam profundidade com visão ampla.

No entanto, para isso acontecer, a forma como seleccionamos e recrutamos talento tem de evoluir: tem de deixar de olhar para currículos não lineares como desvios de percurso, de criar perfis funcionais que abracem a transdisciplinaridade e de desenhar processos de recrutamento que consigam reconhecer potencial nos percursos de vida e não apenas nos certificados de habilitações.

As organizações verdadeiramente inovadoras não se constroem apenas com respostas certas; constroem-se, cada vez mais, a partir das perguntas certas. E esse é o espaço onde os generalistas florescem: a ampliar a visão, a desafiar os limites e a construir pontes onde normalmente há muros.

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