Carreira: Sonhos que não acabam

Titiana Barroso
30 de Maio 2018 | 09:33

Com uma tripla vida profissional muito gratificante e preenchida, como advogado, professor universitário e ainda com funções de gestão, Jorge Brito Pereira,  não esconde que a sua felicidade está em outras coisas.

 

Entrevista Pedro Fontes Falcão
Transcrição Diana Pedro Tavares | Edição Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho

 

Jorge Brito Pereira é advogado há quase três décadas. Apesar de também dar aulas (desde o quinto ano da faculdade) e de ser presidente do Conselho de Administração da NOS (desafio que assumiu mais recentemente), não se imagina a deixar a advocacia. Quando escolheu o curso teve algumas dúvidas mas depois apaixonou-se pela profissão. Sócio da Uría Menéndez-Proença de Carvalho desde 2016, recorda alguns momentos decisivos na sua carreira e os ensinamentos do seu patrono e mentor, José Miguel Júdice, nomeadamente que quando não temos solução para um problema é porque ainda não pensámos e trabalhámos o suficiente sobre ele. E faz notar que, por trabalharem com a justiça, os advogados nunca devem perder o referencial do bem e do mal, sendo preciso saber dizer não, sob pena de se tornarem pessoas cínicas.

Pedro Fontes Falcão, gestor, docente universitário e conselheiro da Human Resources Portugal conduz a entrevista, que revela mais sobre Jorge Brito Pereira, que, para além da tripla vida profissional, corre maratonas há 12 anos, desporto que lhe ensinou a encarar os obstáculos e os objectivos de curto/ médio prazo de forma diferente. «Não há ninguém que corra 42 quilómetros e esteja confortável em todo o percurso.»

 

Como surge a sua ligação ao Direito? Alguma vez se arrependeu de ter enveredado por esta área?

Não é muito fácil explicar porque quis tirar Direito. Acabou por ser uma decisão mais ou menos natural. Sempre tive uma queda bastante forte para a área de humanísticas. Depois, a pouco e pouco, o caminho foi-se estreitando. Por volta dos 16/ 17 anos, tive algumas dúvidas vocacionais e quando entrei na Faculdade de Direito ainda não estava certo de que era o que queria, mas as dúvidas foram-se dissipando. E posso dizer que me apaixonei pelo curso. Nunca me arrependi. Foi uma decisão mais feita pela própria vida do que propriamente uma ideia que tivesse quando era criança. Hoje é uma profissão que me faz muito feliz e que me realiza.

 

Foi reconhecido como leading lawyer pelos mais importantes directórios internacionais nas áreas de Capital Markets, Banking & Finance, Private Equity e M&A/ Corporate Law, mas tem desenvolvido sempre a sua actividade em Portugal. Nunca considerou ir para o estrangeiro?

Sim, cheguei a equacionar essa possibilidade. Quando tinha 24/ 25 anos, ponderei ir para Inglaterra. Tive uma proposta de um escritório inglês, ia fazer o meu LLM [mestrado em Direito] em Londres, mas, por razões que na altura tiveram a ver com a grande crise económica que Inglaterra vivia, a proposta foi revista e acabei por não ir. Fui depois para o Brasil, estive a fazer um estágio durante seis meses, em São Paulo, e gostei muito. Mas, nos anos 90, a minha vida acabou por se recentrar em Lisboa. O mundo era muito diferente do que é hoje, as oportunidades também eram outras e não se voltou a proporcionar.

 

«Não há nenhum grande escritório português em que o acesso à sociedade seja feito por compra de capital e não por meritocracia.»

 

Durante a sua carreira, consegue identificar algum momento decisivo? Ou algum momento especialmente positivo ou negativo, no seu percurso?

Há de facto alguns momentos que foram definidores e que marcaram a forma como o meu percurso profissional ocorreu. O primeiro foi provavelmente a primeira OPA [oferta pública de aquisição] em que trabalhei, já no distante ano de 1991. Ainda era estagiário, quando o meu patrono, o doutor José Miguel Júdice, me convidou para trabalhar com ele na OPA da Finantia sobre a Sofinloc. Foi um processo muito marcante, até porque marcou o princípio do trabalho numa área que acabaria por me acompanhar ao longo da vida profissional.

Destacaria ainda mais dois momentos, que aconteceram mais tarde: a OPA do BCP [Banco Comercial Português] sobre o Banco Português do Atlântico e, mais recentemente, em 2006, a oferta da Sonae sobre a Portugal Telecom. Foram processos muito marcantes. Existiram mais, mas se tivesse que restringir a três seriam estes porque acabaram por ditar um caminho e influenciar opções que viria a tomar mais tarde.

 

E, nesses momentos, ou ao longo da sua carreira, alguém o inspirou?

A minha vida profissional foi influenciada por muitas pessoas, mas destaco só uma, que já referi: o doutor José Miguel Júdice, uma pessoa com quem trabalhei directamente durante muitos anos, que me influenciou de forma determinante na maneira como encaro a profissão e a minha carreira. E é também um querido amigo. Tento fazer-lhe justiça transmitindo aos advogados mais jovens que trabalham comigo o que ele me ensinou e dando-lhes as oportunidades que ele também me deu.

 

Falou na OPA da Sonae sobre a PT… Actualmente, é também chairman da NOS. Como se sente quando está nessa posição, ou seja, quando tem de “mudar o chapéu”, de advogado para “cliente”?

É de facto uma perspectiva muito diferente e profundamente enriquecedora, não apenas pessoalmente, mas até para a forma como eu vivo a advocacia e encaro o direito. É de facto outro lado da mesa, pois deixei de assumir a função de advogado da NOS. Ainda fiz a assessoria do processo de fusão da Zon com a Optimus mas quando assumi as funções de presidente do conselho de administração tive de largar totalmente a relação de advogado com a empresa. Quando a oportunidade surgiu confesso que tive muitas dúvidas sobre se devia aceitar, mas hoje não tenho. Foi uma oportunidade única e tem sido um privilégio cumprir essa função. Fez de mim um profissional diferente pois deu-me uma perspectiva diferente. A lógica, as prioridades e até as formas de comportamento são diferentes.

«Se não temos solução para um problema é porque ainda não pensámos e trabalhámos o suficiente sobre ele.»

 

Há poucos anos, fez um MBA numa das melhores escolas do mundo. O advogado vai virar gestor?

Acho pouco provável. O MBA foi sobretudo o resultado da forma como a vida me foi levando. Ao começar a desempenhar funções na administração da NOS senti que me faltava alguma “educação formal”. Apesar de ser advogado na área financeira há muitos anos, e do forte contacto com o mundo financeiro, senti que não era compatível com o que precisava; precisava de mais conhecimento e por isso, nos 25 anos de carreira, atribui-me o prémio de fazer uma paragem e ir fazer o MBA no IMD. Foi tudo o que esperava e deu-me exactamente aquilo que precisava, um maior domínio de temas financeiros e contabilísticos, ao mesmo tempo que me permitia o privilégio de pensar um pouco sobre mim, na forma como orientava e me comportava na minha vida profissional. Foi um projecto ganho. E hoje, no desempenho da minha actividade, trago parte muito significativa do que aprendi. O MBA, e o trabalho que faço na NOS, faz com que os meus clientes tenham um advogado que os entende melhor.

Perguntei porque os advogados costumam reformar-se cedo dos grandes escritórios…

Não está em cima da mesa uma mudança da profissão. Ninguém sabe o que o futuro lhes reserva, portanto não posso fechar essa porta, nem faria sentido que o fizesse, mas nesta altura está muito longe dos meus projectos. Tenho uma tripla vida profissional, que vou tentando gerir, como advogado, com funções de gestão e com uma vida académica muito preenchida desde sempre. Mas destas três vidas, a mais marcante, que ocupa mais os meus dias e me faz perder mais noites de sono, é de facto a minha vida como advogado e acho que é essa que me vai acompanhar, provavelmente, ao longo do resto da minha vida profissional.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Maio da Human Resources Portugal.

Veja também estas entrevistas.

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