Casamos? Ou é um flirt com a angústia de liderar?

Human Resources
14 de Julho 2025 | 10:40
Casamos? Ou é um flirt com a angústia de liderar?

Na liderança, a angústia estará sempre à espera para cumprir o seu papel: desgastar, consumir energia, colocar dúvidas… Liderar está longe de ser um processo confortável. Mas talvez seja essa condição que nos faz crescer.

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Por Rui Lança, director desportivo no Ittihad Club (da Arábia Saudita) e docente universitário

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Lê-se muito sobre liderar, ser líder, fórmulas mágicas (lê-se menos sobre o que é ser liderado, estranhamente). Mas quem lidera pessoas e projectos de forma contínua sabe que liderar consome-nos tempo e energia. É um pacote a full-time. Por vezes, tira-nos o foco, sofremos por antecipação e, numa cultura de trabalho errática, o reconhecimento aparece muito mais quando algo corre mal do que quando corre bem.

Consoante o perfil de quem lidera, o grupo que lideramos, o contexto e os resultados que ambicionamos, há também várias formas de estar nesta relação com a liderança. Não me interessa discutir quais são as (in)correctas. Tal como há quem trabalhe pouco mas com grande qualidade, e quem trabalhe muito mas sem grande impacto, também na liderança há quem se entregue totalmente e não gere fluidez, quem sofra internamente – mesmo quando tudo corre bem – e quem pareça conviver bem com o menor controlo, deixando-nos na dúvida se se trata de distracção ou de uma falta de compromisso.

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Confesso que a experiência em contextos exigentes e em países diferentes me ajudou a conviver melhor com a angústia. Mas também confesso que, pelo meu perfil, ela continua presente na minha relação com a liderança, e não só porque trabalho num ambiente onde cada derrota é um tiro no porta-aviões e onde vivemos numa constante montanha-russa de bestial a besta. Acredito que todos temos formas diferentes de nos entregarmos ao acto de liderar: seja liderar pessoas, números, ou ambos.

A fase seguinte é sabermos como viver e lidar com esse sentimento. E creio que aí existem estratégias muito interessantes. Uma delas é saber distinguir entre o que controlamos e o que não controlamos, e focarmo-nos no que depende de nós. E aceitar isso como natural. Celebrar o que corre bem e não apenas viver do que corre mal. E rodearmo-nos de pessoas que acrescentem valor, sejam assertivas, possam apoiar e instruir, mesmo que liderar possa ser um processo muito solitário.

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No final do dia, a angústia, especialmente para quem tem essa característica na sua génese, estará sempre à nossa espera para cumprir o seu papel: desgastar, consumir energia, colocar dúvidas e fazer-nos pensar que o copo nunca está totalmente cheio de coisas boas. Liderar está longe de ser um processo confortável. Mas talvez seja essa condição que nos faz crescer. Não é um caminho sem pedras, mas convém saber, de forma clara, que liderar pressupõe interessarmo-nos genuinamente pelas pessoas, mais do que querermos ser interessantes para elas.

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Como costumo dizer: dia-a-dia, um dia não são dias, mas muitos dias acabam por ser uma vida inteira. Por isso, é fulcral pensarmos primeiro com clareza no que pretendemos e no que estamos dispostos a abdicar.

 

Este artigo foi publicado na edição de Junho (nº. 174) da Human Resources.

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Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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