Joana Pita Negrão, Dils: Quem cuida de quem cuida?

Cuidar é um acto silencioso que sustenta o que é invisível. Quando o cuidado faz parte da cultura, todos crescem – pessoas, equipas e organizações tornam-se mais humanas e mais fortes.

 

Por Joana Pita Negrão, People and Culture director da Dils

 

Um professor da Nova SBE, meu ex-colega e amigo, perguntou-me um dia: “Se tu cuidas dos outros, quem cuida de ti?”Esta pergunta ficou-me na cabeça e nunca ninguém me a tinha feito antes de trabalhar na área de Recursos Humanos (RH).

Em Portugal, os cuidadores informais desempenham um papel crucial no apoio a familiares e amigos em situação de dependência. Estas pessoas, muitas vezes sem formação específica ou remuneração, dedicam-se a tarefas que vão desde a assistência nas actividades diárias até ao suporte emocional. No entanto, este compromisso acarreta desafios relevantes, tanto a nível pessoal como profissional.

A dedicação ao cuidado informal pode levar a uma sobrecarga física e emocional significativa. Os estudos revelam que quase 30% dos cuidadores informais experienciam uma sobrecarga intensa, enquanto 54% enfrentam uma sobrecarga ligeira. Esta realidade pode resultar em exaustão, isolamento social e dificuldades financeiras, especialmente quando os cuidadores são obrigados a reduzir ou abandonar a sua actividade profissional para atenderem às necessidades de quem deles depende.

Paralelamente, quem trabalha na área de RH desempenha um papel fundamental no bem-estar dos colaboradores dentro das organizações, tornando-se, em muitos aspectos, um “cuidador” no contexto profissional.

Esta relação pode ser analisada sob várias perspectivas:

1. Os RH como cuidadores organizacionais
Assim como os cuidadores informais oferecem suporte emocional, físico e logístico aos seus “cuidados”, um director de Recursos Humanos assume a responsabilidade de cuidar do bem-estar dos colaboradores. Procura garantir que as condições de trabalho são adequadas, tenta promover o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, e procura soluções para desafios como a sobrecarga de trabalho e a saúde mental dos colaboradores.

2. Apoio a colaboradores que são cuidadores informais
Ao identificarem um colaborador como cuidador informal fora do trabalho, os RH procuram implementar políticas de flexibilidade laboral e/ ou apoio psicológico, de forma a permitir que o colaborador consiga conciliar as suas responsabilidades sem comprometer o seu desempenho, nem a sua saúde mental.

3. Cultura organizacional baseada no cuidado
Os directores de Recursos Humanos são responsáveis por fomentar uma cultura corporativa onde o cuidado e a empatia são valores centrais. Assim como os cuidadores informais colocam as necessidades dos outros à frente das suas, os líderes de RH devem promover um ambiente de apoio mútuo, incentivando o bem-estar e a humanização do local de trabalho.

Mas atenção: tal como os cuidadores informais podem sofrer de exaustão emocional e física, também os profissionais de RH enfrentam a pressão de lidar com problemas sensíveis, conflitos internos e exigências constantes. Criar sistemas de suporte, tanto para si mesmos como para os colaboradores, é essencial para evitar a sobrecarga e garantir um desempenho sustentável.

Os cuidadores informais são pilares fundamentais no sistema de saúde e apoio social em Portugal. Reconhecer o seu papel e fornecer-lhes os recursos necessários não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma estratégia essencial para garantir o bem-estar de uma população envelhecida e em crescente necessidade de cuidados continuados.

Diria que o ideal é mesmo termos os nossos “cuidadores” bem atentos, porque, no limite, todos devemos cuidar uns dos outros. E de nós mesmos!

 

Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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