Liderar com mundo. Autoliderança: Um regresso a nós

A autoliderança não é uma fórmula fechada. É um compromisso contigo. E começa com um passo pequeno, real, hoje.

 

Por Vanda Santos, coordenadora Operacional da PWN Lisbon no programa de NeuroLiderança; C-Level director – People & Culture na Garcias, consultora, cormadora, mentora e Palestrante em diversas áreas de liderança

 

Quando me convidaram para escrever sobre autoliderança, senti um aperto bom no peito. Este é um daqueles temas sobre o qual não se pode apenas escrever. É preciso vivê-lo.

Enquanto escrevi este texto, meti uma música tranquila. Fechei os olhos. Fiquei ali um pouco, a ouvir. Tentei silenciar os ruídos de fora, para me ligar ao que há cá dentro. E foi a partir daí que escrevi para ti.

Lembro-me bem da última vez que facilitei um workshop sobre autoliderança. À medida que partilhava a minha história com exemplos práticos de autoliderança, olhei de relance e vi quem estivesse boquiaberto, ou de olhos fixos, incrédulo, ou com lágrimas nos olhos. Apercebi-me de que cada um estava também numa viagem dentro de si, a tentar absorver tudo o que era partilhado. Como se o que estavam a ouvir, despertasse algo que já lá estava dentro de cada um deles.

É disso que se trata: a autoliderança já vive em nós. Só precisamos de ir lá resgatá-la.

 

Não é uma fórmula. É um processo. Individual.
Já existem muitas fórmulas mágicas sobre autoliderança. As redes sociais já nos preenchem a timeline, e a inteligência artificial (IA) já tem todas estas fórmulas na ponta da língua. Mas eu não venho falar disso. Venho falar do que se vive. Porque liderar-nos a nós próprios não é um conceito bonito, é uma prática difícil, exigente, por vezes solitária, mas profundamente transformadora.

Autoliderar é assumir que nem tudo depende de nós. É assumir o que fazemos com o que nos acontece. É decidir que vamos olhar para o que dói, aprender com isso e, quando possível, transformar. E quando não for possível, dar-lhe um lugar, sem deixar que nos defina.

Se no passado tivemos vontades, ou sonhos, que não realizámos, seja por que motivo for, posso carregar essa mágoa ou transformá-la noutra coisa. Nem sempre conseguimos contrariar uma situação no momento em que ela nos acontece. Mas um dia, mais cedo ou mais tarde, temos de decidir o que fazer com isso. E aí começa a verdadeira mudança.

 

Nem sempre conseguimos sozinhos.
Habitualmente perguntam-me se “é fácil este caminho da autoliderança?”. Claro que não. Mas ignorá-lo sai ainda mais caro. E pedir ajuda faz parte. Falar com um profissional de confiança, dependendo do momento e da clareza em que te encontras, seja um mentor, terapeuta, psicólogo, coach ou profissional de People, pode fazer a diferença entre continuar preso ou encontrar uma saída. Quando estamos dentro da “dor”, muitas vezes não vemos com clareza. Precisamos de um novo olhar, a denominada “nova perspectiva”, para conseguirmos ter uma nova percepção sobre o que estamos a sentir ou viver.

Procurar esse conforto junto de um amigo ou colega pode ajudar, mas devemos confiar nos profissionais dentro destas áreas que podem apoiar com ferramentas, de forma mais consistente e eficaz.

 

Foco acima da perfeição.
Não tenho uma prática perfeita. Perco a consistência. Falho comigo. Desalinho. Mas não deixo de voltar. E quando volto, volto com foco. Porque, mesmo quando o corpo cansa ou a mente foge, há algo dentro de mim que sabe para onde quer ir.

Foco não é rigidez. É memória. É presença. É a bússola que nos lembra quem somos.

 

Os valores como guia.
A determinada altura da vida comecei a perceber que, se não me conhecesse, ia viver à deriva. Os meus valores tornaram-se faróis. Foram eles que me ajudaram a decidir quando ficar, quando sair, quando falar e quando calar. Quando os traí, paguei o preço. Quando os honrei, ganhei paz.

E não, não se trata de viver à margem das expectativas dos outros. Trata-se de viver alinhada comigo.

 

A minha história, em traços breves.
Durante anos, fiz o que era suposto. Segui caminhos impostos. Estudei áreas que não me preenchiam. E depois, devagar, comecei a construir um caminho paralelo. Estudei psicologia, comportamento humano, coaching, mentoria. Recomecei vezes sem conta. Caí. Voltei a cair. Reergui-me.

Um desses recomeços teve o nome que ninguém quer ouvir: cancro. Já tinha um filho pequeno. A vida pediu-me tudo – e eu tive de parar, escutar, redefinir. Não escolhi a doença. Mas escolhi o que fazer com ela. O que aprender. O que significava. E foi nesse momento, tão cru e tão difícil, que mais uma vez me transformei e de onde saí com mais força.

Ali percebi, com mais clareza do que nunca, que não controlamos tudo, mas podemos sempre decidir o que fazemos com aquilo que nos acontece. E isso é autoliderança. Não precisas de um momento difícil para te descobrires, precisas apenas dessa decisão.

 

E tu, onde estás?
Autoliderar é decidir não viver adormecido. Não é ser o melhor do mundo. É ser o melhor com o que se tem por dentro. É saber parar. Respirar. Escutar.

É saber quando é tempo de silêncio, de cuidar, de recuar ou de avançar. Porque a autoliderança é isto:

Escutar-te com verdade.

Aceitar-te com compaixão.

Agir com intenção.

E regressar sempre que te perderes.

 

Não é uma fórmula fechada. É um compromisso contigo. Começa com um passo pequeno, real, hoje. E há algo que não posso deixar de dizer: quanto melhor me lidero a mim, melhor lidero os outros.

A autoliderança é o ensaio da liderança – na vida, nas relações, nas equipas. Porque quem não se escuta, dificilmente escuta. Quem não se respeita, dificilmente inspira. E quem vive desconectado de si, tende a liderar a partir do controlo e não da confiança

E tu, que passo vais dar por ti, hoje? Eu estou aqui. E se precisares, estarei por perto.

 

Este artigo foi publicado na edição de Maio (nº. 173) da Human Resources

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