Não é (só) pelo salário que ficam — é pelo propósito

Por Teresa Sabino, directora de Recursos Humanos da UPPartner

 

Durante décadas, a remuneração foi, para muitos profissionais, o principal critério na hora de aceitar ou recusar uma proposta de trabalho. O salário era o centro da equação. Mas os tempos mudaram — e com eles, as pessoas. Hoje, cada vez mais colaboradores, especialmente entre as gerações mais jovens, procuram algo que vá além da compensação financeira. Procuram significado. Procuram um lugar onde possam alinhar o seu talento com um propósito maior.

Não se trata de desvalorizar o salário — até porque continua a ser um factor essencial de estabilidade e reconhecimento. Mas quando falamos de retenção a médio e longo prazo, o que leva alguém a ficar não é apenas o que entra na conta ao fim do mês. É o que se leva da experiência profissional. É o que se sente todos os dias. É o sentido de pertença, o impacto que se tem, a identidade da organização e a coerência entre o que se diz e o que se faz.

As novas gerações olham para o trabalho como uma extensão da sua identidade. Querem contribuir para algo em que acreditam, trabalhar com equipas que partilham valores semelhantes, e sentir que o seu esforço está alinhado com um propósito real — seja ele ambiental, social ou simplesmente humano. E este movimento está longe de ser passageiro. Está a moldar a forma como as empresas devem pensar cultura, liderança e retenção.

Aliás, um estudo recente da Deloitte mostra que 44% dos Millennials e 49% da Geração Z afirmam que deixariam o seu emprego se sentissem desalinhamento entre os valores da empresa e os seus próprios. O que mostra que, hoje, o propósito deixou de ser um “extra” para se tornar um verdadeiro critério de decisão.

Mas esta não é uma mudança exclusiva da Geração Z. O desejo por mais sentido no trabalho atravessa faixas etárias e níveis de experiência. Muitos quadros médios e seniores, com percursos consolidados, estão a repensar o que significa “crescer” dentro de uma empresa. Já não basta ter um cargo de responsabilidade — é preciso que esse cargo traga impacto. Que se esteja a contribuir para uma organização com valores claros e com acções que reflictam esses valores.

Para as empresas, esta mudança exige coragem — para se reinventarem, para escutarem mais e para colocarem o factor humano no centro da estratégia. A construção de um employer branding sólido passa, inevitavelmente, por uma cultura onde o propósito seja vivido no dia-a-dia, e não apenas comunicado em campanhas. Onde a liderança tenha clareza sobre o rumo e coerência na forma como esse rumo é partilhado com as equipas.

É por isso que falamos do propósito como moeda. Porque, hoje, é com ele que se conquistam os melhores talentos. É ele que fideliza, que inspira e que transforma colaboradores em verdadeiros embaixadores da cultura da empresa. Uma organização com propósito torna-se magnética — não só para quem está de fora, mas sobretudo para quem já está dentro.

Em mercados competitivos, onde as propostas chegam cada vez mais rápido, a diferença raramente está no número. Está na experiência. Está na conexão. Está na forma como as pessoas se sentem no seu dia-a-dia. E quando uma empresa consegue alinhar talento com propósito, está a criar não apenas equipas mais motivadas, mas também mais resilientes, mais produtivas e, sobretudo, mais leais.

Porque, no fim, as pessoas podem entrar por causa do salário. Mas é pelo propósito que escolhem ficar.

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