O custo silencioso do desapego profissional e o papel das lideranças emocionalmente inteligentes e positivas

Por Margarida Fragata, profissional de Comunicação na CGD e investigadora na área da Liderança

 

Num contexto marcado pela incerteza e pelo desapego profissional, o compromisso tornou-se um activo escasso e estratégico. A forma como os líderes comunicam, inspiram e gerem emoções determina directamente o nível de envolvimento das equipas.

Vivemos tempos em que o talento circula, a lealdade passou a ser mais volátil e o compromisso tornou-se um activo raro. A volatilidade dos mercados, o ritmo tecnológico e o cansaço emocional acumulado alteraram a forma como as pessoas se relacionam com o trabalho. A grande questão é: por que tantos colaboradores se desligam emocionalmente das organizações e o que podem os líderes fazer para inverter este fenómeno?

O desafio do compromisso em contexto de incerteza

O desapego profissional é um dos sintomas mais visíveis da modernidade líquida, onde tudo é temporário, substituível e veloz. As relações de trabalho não escapam a essa lógica. Estudos recentes indicam que a instabilidade e a ausência de propósito são factores decisivos para a quebra do vínculo emocional com as empresas.

Quando o contrato psicológico se rompe, o colaborador mantém o corpo presente, mas o entusiasmo e o envolvimento desaparecem. O resultado é um custo silencioso, mas elevado, traduzido em menor produtividade, perda de inovação e rotatividade crescente. Num mercado onde atrair e reter talento é cada vez mais desafiante, o compromisso interno é um verdadeiro indicador de força organizacional, que precisa de ser cultivado todos os dias.

Lideranças emocionalmente inteligentes e positivas

No âmbito da investigação que realizei sobre lideranças emocionalmente inteligentes e positivas, ficou evidente que este tipo de liderança é determinante para manter o compromisso das equipas. Líderes empáticos, autênticos e coerentes geram níveis mais altos de confiança, propósito e compromisso.

A inteligência emocional não se resume à empatia. Inclui a capacidade de gerir emoções próprias e alheias, comunicar com clareza e reconhecer o impacto das decisões sobre as pessoas. Quando aliada a uma liderança positiva, orientada por valores de reconhecimento, propósito e bem-estar, transforma o ambiente de trabalho num espaço seguro onde o colaborador quer permanecer, e não apenas onde precisa de estar.

Os líderes, por sua vez, reconhecem o desafio de gerir emoções num contexto onde a pressão por resultados é constante. Durante a investigação, a maioria dos líderes reconheceu que as empresas ainda não estão preparadas para as novas exigências, sobretudo das gerações mais jovens, que procuram autonomia, atenção e desafios constantes. O equilíbrio entre exigência e humanidade tornou-se o verdadeiro teste de liderança contemporânea.

O compromisso como vantagem competitiva

Organizações que traduzem a liderança emocionalmente inteligente em prática sistemática beneficiam de maior retenção, colaboração e inovação. O compromisso não é apenas um indicador de satisfação, é um motor de sustentabilidade organizacional.

Isso implica rever políticas internas, integrar o bem-estar nos objectivos estratégicos e investir na formação dos líderes, não apenas em gestão, mas em autoconsciência e empatia. O futuro da liderança exige uma dimensão mais humana, sem perder foco nos resultados.

Num mundo em que a incerteza é a única certeza, o verdadeiro diferencial competitivo são as relações de confiança. O compromisso não se impõe por contrato nem se compra com incentivos. Constrói-se na forma como se comunica, se reconhece e se inspira.

As organizações que compreenderem isto cedo terão uma vantagem difícil de replicar: equipas emocionalmente ligadas a um propósito.

Porque, no final, as empresas não são nada mais nem nada menos do que pessoas.

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