Paulo Rosado: A cultura e o propósito como factores de diferenciação

Human Resources
30 de Julho 2019 | 12:00

Paulo Rosado acredita que a cultura da OutSystems e a sua proposta de valor, enquanto empregador, são bastante fortes. Assumem como missão mudar o mundo e, mais do que um emprego, é isso que os colaboradores procuram.

 

Por Ana Leonor Martins

 

Foi a «vontade de criar algo novo e a certeza de que a transformação tecnológica tinha um potencial tremendo em todas as áreas de negócio» que levaram Paulo Rosado a, em 2001, apostar na criação da OutSystems. «Tive a sorte de estar em Silicon Valley numa altura em que as chamadas novas tecnologias e a Internet serviam de base à criação de novos negócios praticamente todos os dias, alguns deles completamente disruptivos, que se tornaram depois grandes empresas à escala global, como é o caso da Amazon», recorda. Na altura, trabalhava na Oracle como engenheiro informático.

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Sendo fácil perceber, «naquele ambiente frenético e altamente exigente, o potencial que a tecnologia tinha», a certa altura, colocou-se a questão que fez o CEO da OutSystems mudar tudo: «Ou aceitava uma das muitas propostas que qualquer engenheiro informático recebia na altura por parte de startups ávidas por ideias, que nos prometiam o céu; ou me mantinha onde estava com um trabalho estável, relativamente bem remunerado, mas sem grande hipótese de me desviar daquele workflow extremamente bem oleado; ou arriscava directamente num negócio meu, no qual pudesse colocar em prática todas as ideias e projectos que a tecnologia me fazia adivinhar.» A escolha, já sabemos qual foi. Voltou a Portugal, arriscou e criei a sua própria empresa. «O início não foi fácil, mas o tempo mostrou que tomei a decisão certa», acredita. Com a empresa avaliada em mais de um milhão de dólares, ninguém terá dúvidas disso.

 

Em Silicon Valley anteviu o potencial da transformação tecnológica, mas, em Portugal, há quase 20 anos, ainda não estava propriamente na agenda dos empresários. Quais as principais dificuldades que encontrou na OutSystems?

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Podemos falar em três tipos de dificuldades. Primeiro, precisamente o facto de a maioria das empresas daquela altura não ver a tecnologia como um investimento, mas sim como um custo, o que dificultava a percepção real das mais-valias e a noção de rentabilidade. Havia já um despertar de grandes empresas da banca, das seguradoras e das telecomunicações para uma corrida à inovação, mas estávamos ainda numa fase com pouca massa crítica no mercado.

Depois, a chamada bolha tecnológica à escala mundial acabou por inviabilizar muitos negócios, travar projectos já em andamento e criar ainda mais receio nos decisores – empresários e políticos. Por fim, o cenário não era propriamente o ideal para apresentar ideias disruptivas baseadas em tecnologia, apesar de sabermos serem perfeitamente viáveis e seguras, mas que os decisores não conseguiam vislumbrar e perceber a médio e longo prazo.

Não era, de todo, o cenário ideal para o surgimento do que hoje chamamos de uma startup, mas, contrariando todos estes sinais, acreditámos nas nossas ideias, formos persistentes e os projectos começaram a surgir.

 

Actualmente o ecossistema é mais propício ao surgimento de startups, principalmente na área tecnológica, mas não é menos verdade que a maioria não ultra- passa os cinco anos. Qual diria ser o principal “segredo” para a longevidade?

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Existem vários factores que podem ajudar a determinar a continuidade ou não de uma nova empresa que surge no mercado. No caso da OutSystems, a nossa persistência e o facto de acreditarmos muito naquilo que tínhamos em mãos foram fundamentais para nunca desistirmos do projecto. E ainda bem que não o fizemos. Acreditar realmente naquilo que estamos a apresentar ao mercado, e saber que é algo que pode efectivamente fazer a diferença, é fundamental para determinar se o projecto pode ou não ser bem-sucedido.

 

A Intervento, o seu projecto anterior, vendeu, mas a OutSystems já atingiu a maioridade (18 anos). O que continua a mantê-lo motivado neste projecto, avaliado em mais de mil milhões de dólares?

A motivação acaba por chegar de vários lados e ainda bem! Chega da pressão que o próprio mercado coloca, obrigando- -nos a uma inovação constante. Também chega do potencial tremendo que vemos no low-code que, arrisco a dizer, o coloca no topo das soluções tecnológicas para as próximas décadas; é também uma enorme fonte de motivação a história da própria empresa, as dificuldades ultrapassadas e a forma como te- mos conseguido levar este projecto; e claro que o espírito livre e o entusiasmo
dos nossos colaboradores é, por si só, suficiente para motivar-nos a todos, independentemente da valorização que a OutSystems vai conseguindo.

 

Estando há quase duas décadas a trabalhar para ajudar os clientes a inovar mais rapidamente, através do recurso à tecnologia, acredita que as empresas já estão despertas para o imperativo da transformação digital? Que evolução percepciona no mercado?

Não é sequer comparável com 2001. Hoje, a maioria das empresas estão perfeitamente despertas para a necessidade de uma transformação digital e de apostar em ferramentas digitais como parte do ADN do seu negócio, seja qual for o sector.

O desafio agora coloca-se na falta de agilidade e de rapidez das soluções tradicionais de desenvolvimento, o que é uma verdadeira barreira a essa mesma transformação. Soluções de desenvolvimento ágil de software, como as da OutSystems, são a melhor resposta, já que permitem poupanças significativas de tempo e dinheiro no desenvolvimento de projectos online e mobile. Acredito que as empresas estão cada vez mais sensibilizadas para a verdadeira transformação que o low-code vai trazer aos seus negócios.

 

A OutSystems tem feito um estudo sobre a maturidade das empresas portuguesas em termos de transformação digital. O que destacaria dos resultados?

O relatório “The State of Application Development 2019” teve como base inquéritos efectuados a 3300 profissionais de Tecnologias de Informação (TI) de empresas de todas as dimensões, em  todos os tipos de indústria e a nível mundial, incluindo 253 respostas de profissionais de TI de empresas portuguesas, ou que estivessem a operar em Portugal.

Creio que, no resultado deste estudo, é de salientar o facto de mais de metade das empresas portuguesas terem aumentado as suas equipas de desenvolvimento e estarem acima da média na transformação digital. São cada vez mais organizações que tendem a apostar no outsourcing para o seu desenvolvimento de aplicações. E a adopção do low-code foi significativamente maior entre os entrevistados em Portugal, com 63% a referirem ter já aderido a este tipo de tecnologia, o que mostra que em Portugal existe uma forte consciencialização de como a transformação digital pode ajudar negócios de várias áreas a prosperar e a destacar-se da concorrência.

Leia a entrevista na íntegra na edição de Julho/Agosto da Human Resources.

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