O Well-Being O’Clock estreou-se na misteriosa “cave secreta” da Delta The Coffee House Experience, em Lisboa, num ambiente pensado para promover a proximidade, a confiança e a conversa aberta. O primeiro encontro teve lugar no mês de Fevereiro, ao final da tarde, e partiu do tema “Os desafios do bem-estar: Um fenómeno global” com o objectivo de reflectir sobre práticas organizacionais, liderança, responsabilidade individual e culturas de trabalho.
Mais do que um evento formal, e tal como Daniela Lima, fundadora e manager partner da Swaifor, referiu durante a abertura, o Well-Being O’Clock propõe-se como um momento diferenciador de descompressão, inspiração e ligação. Um espaço onde se cruzam experiências reais, boas práticas e também desafios, num registo informal e onde o networking acontece de forma orgânica, acompanhado por um copo e um diálogo sem pressa.
Para abrir a conversa, três oradores com percursos distintos aceitaram partilhar a sua visão sobre o bem-estar: Mert Cetin, CEO da Pluxee; Ana Rita Lopes, directora de Pessoas, Cultura e Desenvolvimento da Delta Cafés; e Carlos Andrade, ex-basquetebolista internacional português e actual dirigente e formador na áredo desporto.
O bem-estar como fenómeno global e cultural
A partir de uma experiência profissional vivida em vários países – da Turquia ao Médio Oriente, passando pela Ásia e agora Portugal –, Mert Cetin trouxe uma perspectiva global sobre o bem-estar no mundo corporativo. Para o CEO da Pluxee, não existe uma definição universal, porque a forma como o bem-estar é entendido e vivido varia profundamente consoante a cultura.
«Uma empresa na Suécia tem uma abordagem completamente diferente de uma empresa na China», afirmou, recordando um caso real estudado em Pequim, onde trabalhadores de uma fábrica cumpriam jornadas de 14 horas diárias, vivendo dentro do próprio complexo industrial. «As pessoas começaram a suicidar-se e a solução encontrada pelo especialista de bem-estar foi colocar redes para impedir que saltassem. » Um exemplo extremo, que ilustra até onde pode chegar um sistema quando o bem-estar não é considerado parte da equação.
Simultaneamente, o mesmo responsável sublinhou que essa realidade está a evoluir. Em países emergentes como as Filipinas, onde viveu e trabalhou durante vários anos, observou uma nova geração mais consciente da saúde física e emocional. «Existe uma procura real por práticas de bem-estar, e as empresas que trabalham a experiência do colaborador estão a ser chamadas a responder.» No caso da Pluxee, e enquanto empresa focada na experiência do colaborador, o responsável acredita que o sucesso vem da resposta que têm dado a esta demanda.
Para Mert Cetin, o bem-estar não se reduz a programas ou benefícios isolados. É um espectro amplo, que envolve cultura, liderança, contexto social e até geografia. «Descobrirmo-nos não significa necessariamente ter olhos novos. Às vezes, basta mudar de geografia para que esses olhos se abram.»
O exemplo vem de cima
Na sua intervenção, Ana Rita Lopes partilhou a forma como a Delta estruturou aquilo que sempre fez e que desenha o seu ADN desde a sua criação: cuidar das pessoas. Hoje, esse conjunto de práticas chama-se “Delta Feel Good”, mas a preocupação com o bem-estar existe desde a fundação da empresa, há mais de 60 anos.
«O bem-estar não começou agora, apenas ganhou nome», explicou. Recordando o fundador, destacou uma frase que continua a orientar a cultura da organização: «O senhor Rui (Nabeiro) dizia que não queria pessoas a trabalhar mais horas, queria pessoas a trabalhar melhor no tempo em que estavam na fábrica.»
Ao longo da sua intervenção, descreveu um conjunto alargado de iniciativas integradas no programa de bem-estar da empresa – “Delta Feel Good” – que vão desde rastreios de saúde e apoio psicológico – extensível ao agregado familiar – até fundos sociais para situações mais delicadas, complementos salariais em períodos de baixa, apoio em situações de emergência e uma forte ligação às famílias dos colaboradores.
Para a Delta, o colaborador não é uma pessoa durante o horário de trabalho e outra fora dele. Para o senhor Rui, a pessoa não era só alguém que trabalhava oito horas por dia. Ele conhecia as pessoas, as famílias, a sua estrutura familiar, preocupava-se com a vida fora do trabalho e colocava até as carrinhas da empresa à disposição dos colaboradores para os levar às consultas médicas. Hoje, o legado mantém-se: «A vida pessoal influencia a profissional e vice- -versa», sublinhou Ana Rita Lopes, explicando a importância de iniciativas que envolvem filhos, cônjuges e momentos de convívio, como os “Family Days”, colónias de férias ou encontros informais ao final do dia. Existem, ainda, iniciativas dedicadas à saúde mental, que prevêem apoio psicológico aos colaboradores e agregado familiar, ou o Fundo Social de Colaboradores, que ajuda a suportar despesas quando alguém se encontra em situação fragilizada.
Ainda assim, a mesma responsável deixou claro que o bem-estar não pode ser imposto. O papel da organização, defendeu, é disponibilizar ferramentas e criar condições, respeitando diferentes fases de vida e escolhas individuais. «O nosso objectivo é olhar para a pessoa de forma holística: dentro e fora do trabalho, na família e na comunidade. Acreditamos que alguém só trabalha bem se o que está à sua volta também estiver bem.»
A liderança surge aqui como elemento central. «O exemplo vem de cima», afirmou, sublinhando que respeitar horários, promover proximidade e criar confiança são sinais claros de uma cultura saudável – daí também a ausência de teletrabalho na empresa (apesar da flexibilidade horária).
Leia o artigo na íntegra na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.
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