O poder de cada recomeço

Somos um país pequeno, um mercado pequeno na periferia da Europa, que precisa ainda de trabalhar a cultura do risco, sobretudo em matérias relativas à nossa carreira. Porque correr riscos traz sempre consigo um potencial de aprendizagem.

 

Por Paula Campos, professora universitária no IPAM

 

 

No início de cada ano, a que ousamos chamar novo, embora os rituais de cada dia se repitam, as notícias sejam mais ou menos as mesmas, os locais de trabalho exactamente iguais, sabe bem sentir o poder de cada recomeço.

A vida é feita de ciclos, num processo de tomada de consciência de que cada ciclo de vida traz consigo um final, com potencial de arrancada, de recomeço, de mudança!

E estes ciclos, que se repetem de diferentes formas e nos mais diferentes contextos, com uma diversidade de protagonistas e de experiências, existem, para nos relembrarem a essência da vida pessoal e profissional!

É como se a cada ciclo correspondessem pequenas vidas, em que a seguinte deverá corresponder a um processo de crescimento, de melhoria, no caminho da aprendizagem constante que a mudança e o confronto com novas situações encerra.

Na rotina das tarefas que se repetem cada dia das nossas vidas, em que somos chamados a responder com sucesso aos desafios constantes que o trabalho nos coloca, às exigências que as relações interpessoais encerram, o cansaço vai ganhando forma, e é muitas vezes responsável por algumas incompetências comportamentais, que todos, de diferentes formas, experimentamos e sentimos.

As “learning organizations” perceberam isto há já algum tempo e aproveitam cada recomeço para desenvolverem deliberadamente estratégias e actividades onde se trabalhe este potencial de uma nova energia que começa a emergir, com potencial de mudança, de transformação, capaz de dar um novo sentido às mesmas coisas, ao mesmo tempo que se perspectivam projectos diferentes!

Aprendamos com as boas práticas de gestão das pessoas, aprendamos com aqueles que percebem que são as pessoas que fazem a diferença e, por isso, sabem que cada recomeço traz consigo um potencial de sonho, de esperança, que nos torna capazes de enfrentar os ventos da crise e os prenúncios de tempestade, que teimosamente nos continuam a chegar, sempre que lemos um jornal ou vemos as notícias na televisão.

Sem dúvida que temos consciência de que os princípios da qualidade no trabalho deverão orientar a acção, seja qual for o sector de actividade. No entanto, que fazemos nós?

Somos um país pequeno, um mercado pequeno na periferia da Europa, que precisa ainda de trabalhar a cultura do risco, sobretudo em matérias relativas à nossa carreira e à nossa ocupação profissional; privilegiamos a segurança, a estabilidade, a remuneração garantida, em detrimento do risco, da mudança e da compensação do trabalho por objetivos e resultados.

A crise de que tanto se fala reside fundamentalmente aqui, nesta incapacidade de agir, correr riscos e assumir resultados que, mesmo aquém do que esperamos, trazem sempre consigo um potencial de aprendizagem.

Nunca como agora estive tão convicta de que, realmente a solução da crise não está nas organizações e nas instituições que nos regem e cujas regras vão determinando os nossos destinos, mas tão somente na capacidade de cada homem se superar a si mesmo, descobrindo finalmente o seu potencial, quantas vezes solidificado na zona de conforto onde habitam a estabilidade e a tranquilidade.

Todo o recomeço encerra em si uma poção de magia necessária para quem quer continuar a acreditar que tudo de bom vai acontecer, numa materialização do desejo e do sonho, que muitas vezes o cansaço de um ano de trabalho anestesia. Bom recomeços, no início de um ano, ou em qualquer altura.

 

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