A liderança moderna à lupa de um psicólogo clínico

Por André Amorim, CEO da Viata

 

Quando questionado sobre quais as áreas de formação que, em Portugal, mais facilmente levam um profissional ao topo da hierarquia empresarial, o modelo de inteligência artificial ChatGPT devolve a seguinte resposta: “Gestão e Administração de Empresas; Engenharia; Finanças e Contabilidade; Tecnologia e Ciências da Computação; Direito”. Por esta ordem.

Da mesma forma que, quando interrogado sobre as principais razões que, em Portugal, levam à desmotivação de colaboradores em empresas, a tecnologia destaca a “liderança fraca” e a “gestão ineficaz”. Tal como “aprendeu” a salvaguardar, “o ChatGPT pode cometer erros”. E, contudo, o desajuste técnico e funcional observado em tantos perfis de CEO e quadros directivos nacionais, infelizmente, corrobora as respostas facultadas.

Se um conhecimento sólido e abrangente de um negócio como um todo é genericamente considerado condição de base para o sucesso dos gestores de topo, a verdade é que algumas soft skills – como a inteligência emocional, o pensamento crítico, a criatividade, a comunicação, a adaptabilidade e a resiliência – são hoje cruciais para o sucesso.

Sejamos frontais: a insatisfação dos colaboradores raramente se deve, em exclusivo, ao salário. O “show me the money!” existe, mas está longe de ser o deal breaker. A inexistência de níveis de progressão de carreira, de graus de autonomia, as políticas de Recursos Humanos obsoletas e lideranças distantes e/ou alheias encontram-se entre os factores que mais rapidamente levam os melhores profissionais a procurarem outras oportunidades – inclusivamente fora do seu país de origem.

Um colaborador eficaz depende de três pilares principais: a felicidade e motivação no trabalho; a atractividade do projecto e, por fim, o salário. Reconhecendo também que dificilmente esta tríade se encontra totalmente preenchida, é imperativo não falhar no que depende em exclusivo da gestão de topo.

Reconhecendo que o nosso país não gera riqueza como outros, o que por si só explica a falta de atractividade salarial ou, até, a dimensão e appeal de alguns projectos, cumprir com as rotinas de liderança, proximidade física e emocional entre a gestão e as equipas é um factor absolutamente indispensável para o sucesso de uma empresa.

O gestor de topo deve encarar os seus colaboradores como a chave para atingir tudo o resto a que se propõe. Um colaborador desmotivado não produz, a empresa perde, os colegas perdem, os projectos perdem, e a curto/médio prazo, o efeito “bola de neve” cresce.

Em muitos casos, a falta de um bom acompanhamento dos recursos, tanto a nível de chefia, como em termos de gestão de talento ou acompanhamento de carreira, traduz-se primeiramente em desmotivação e, depois, numa eventual ruptura entre o colaborador e a empresa, que vai traduzir-se na perda de um recurso, numa nova necessidade de contratação que, por sua vez, representará uma perda avultada de tempo, eventuais atrasos nos compromissos com os clientes, num indubitável aumento de custos na contratação e consequente formação de um novo elemento que, por si só, poderá não garantir o sucesso de um projecto.

Desta forma, a gestão dos recursos, a proximidade, a motivação extrínseca, as dinâmicas entre as equipas e o investimento e formação dos recursos existentes, poderá representar a chave do sucesso na produtividade e solidez das equipas.

A equação que envolve o CEO altamente técnico e o lado humano da gestão não costuma ter solução óbvia, mas também não pede nenhuma Medalha Fields! Será que as métricas, processos e tecnologia são assim tão incompatíveis com o dedicar tempo a ouvir verdadeiramente a equipa? Porque não perguntar pelos desafios, expectativas e motivações individuais dos colaboradores? O que acontece quando se demonstra interesse genuíno pelas pessoas e não apenas pelos resultados que geram? Com um propósito forte e um líder inspirador, atrai-se talento, motivam-se equipas e fidelizam-se clientes de forma mais natural e autêntica. E não é isso que todas as empresas procuram?

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