
Porque é que tantos profissionais talentosos desistem em silêncio?
Por Lília Silva, People Management lead & IT Talent Acquisition, CodeWin
Vivemos numa era em que a retenção de talento é tão crítica quanto a sua aquisição. E, no entanto, muitos profissionais (sobretudo em áreas altamente técnicas como as Tecnologias de Informação) estão a abandonar o seu envolvimento emocional com o trabalho muito antes de entregarem a carta de demissão.
Fenómenos como o boreout e o quiet quitting são cada vez mais comuns. O primeiro surge da subutilização das capacidades de um profissional, levando à desmotivação por monotonia e ausência de desafio. O segundo, uma resposta silenciosa ao desalinhamento entre o colaborador e a organização, traduz-se numa presença física, mas ausência emocional. Ambos têm algo em comum: são evitáveis.
O problema não está só no colaborador — está no sistema que o recebe
Demasiadas empresas concentram-se em atrair talento, esquecendo-se de o integrar e desenvolver de forma adequada. O processo de onboarding, por exemplo, é frequentemente reduzido a formalidades administrativas e apresentações genéricas, deixando o novo profissional sem rumo claro nos seus primeiros dias.
E se pensássemos o onboarding como o início de uma experiência significativa?
Integração, desenvolvimento e sentido de pertença: os pilares da retenção
A chave está na construção de um ecossistema onde cada pessoa sente que importa, que é ouvida e que está a crescer. Estas são algumas sugestões de práticas com impacto real:
- Um plano de integração estruturado, com objectivos definidos para os primeiros 90 dias;
- Mentoria ou acompanhamento por um colega experiente, que ajude a navegar na cultura da empresa;
- Projectos com impacto e autonomia, mesmo para quem está a começar;
- Um plano de desenvolvimento individual, adaptado à carreira e ambições de cada um.
Mas não basta criar condições. É preciso estar atento.
Liderar com empatia e intenção
Reuniões regulares, feedback bidirecional e momentos de escuta activa são ferramentas poderosíssimas, quando levadas a sério. Mostrar abertura à mudança, adaptar cargas de trabalho e reconhecer o esforço são formas simples, mas eficazes, de manter o envolvimento.
Mais do que manter os profissionais ocupados, é preciso mantê-los motivados, desafiados e conectados com o propósito da empresa. Porque ninguém desiste de um trabalho onde sente que está a crescer, a ser valorizado e a fazer a diferença.
Se queremos evitar o quiet quitting e o boreout, temos de assumir que a responsabilidade é partilhada, mas a iniciativa deve partir da liderança. Integrar com intenção, desenvolver com consistência e escutar com empatia são os verdadeiros antídotos contra o desinvestimento silencioso. O talento quer fazer parte de algo. Cabe-nos garantir que esse “algo” vale a pena.