Reconversão: a ilusão do mundo do trabalho

Human Resources
23 de Março 2026 | 13:20

Por Ricardo Florêncio

Durante décadas, vendemos uma promessa simples: estudar, escolher uma profissão e exercê-la até à reforma. Era a narrativa da estabilidade que estruturou sistemas educativos, carreiras e expectativas sociais. Hoje sabemos que essa promessa terminou. Mas continuamos, colectivamente, talvez não a pensar, mas a agir como se ainda fosse válida.

A digitalização, a automação e, principalmente, toda a nova era da inteligência artificial estão a acelerar uma transformação profunda no mundo do trabalho. As tarefas repetitivas, rotineiras, aquelas que durante décadas sustentaram milhares de postos de trabalho, operacionais e até técnicos, estão a ser progressivamente assumidas por máquinas, que os desempenham de forma muito rápida e melhor. Ou seja, mais produtivo e mais eficiente. E desta vez, a mudança não se limita ao trabalho manual, afecta, sobretudo, outras áreas.

Perante este cenário, o que mais se tem ouvido é a necessidade de upskilling e de reskilling. Mas será mesmo isto que está a acontecer? Ou estamos, na verdade, em processo de reconversão das pessoas?

Se uma parte significativa das funções baseadas nas referidas rotinas está a desaparecer, não basta requalificar pessoas para funções semelhantes noutro sector. O desafio é mais profundo. Trata-se de preparar as pessoas para contextos onde o valor humano é o factor distintivo, onde o foco estará cada vez menos na execução e cada vez mais na capacidade de pensar, criar, decidir, relacionar e resolver problemas novos.

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Isto coloca um desafio acrescido para as pessoas, mas também uma responsabilidade maior para as organizações, pois tem de ser um trabalho desenvolvido com tempo e não apenas quando um posto de trabalho deixa de fazer sentido. Tem de passar a fazer parte da estratégia.

A inteligência artificial não vai esperar que os modelos de gestão se actualizem ou se adequem às novas realidades. Tudo o que são funções repetitivas e rotineiras vão continuar a ser substituídas. Mesmo aquelas que, hoje, pensamos que não o podem ser. A questão é saber se as organizações – e as pessoas – estarão preparadas para os desafios que vêm a seguir.

Editorial publicado na revista Human Resources nº 183, de Março de 2026

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