Viver e trabalhar… Mais tempo, depressa, mas bem!

Sónia Almeida
1 de Junho 2018 | 16:01

Por João Antunes
Director de Recursos Humanos do Grupo Sovena

Urge desenvolver a adaptabilidade, a capacidade de gerir a incerteza e a capacidade de aprendermos a aprender.

Vivemos contextos de mudança acelerada e julgo que todos reconhecemos o impacto que tal tem na forma como vivemos em sociedade, como nos organizamos, como trabalhamos, como nos relacionamos e até como pensamos. Por outro lado, as perspectivas de longevidade são cada vez maiores, o que nos traz um conjunto de novos desafios que, incontornavelmente, deverão preocupar governantes, gestores e, desde logo, todos nós.

Os dados demográficos de Portugal mostram um país que envelhece: os mais jovens (até aos 25 anos) representam hoje um quarto da população (em 1960 eram 46%), enquanto a faixa etária mais sénior (acima dos 65 anos), representa hoje uns impressionantes 21% (apenas 8% em 1960). A esperança média de vida que, em 1960, se situava nos 66 anos disparou para os 83. Por consequência, e de modo a assegurar a sustentabilidade da Segurança Social, a idade de reforma tem vindo a aumentar e está hoje nos 66 anos e 3 meses.

O recente livro de Lynda Gratton e Andrew Scott, “The 100 Years Life, Living and Working in na Age of Longevity”, ajuda-nos a repensar a forma como tradicionalmente olhávamos para a vida – em três estádios: educação, trabalho e reforma. Este caminho de etapas bem estabelecidas está em colapso. O incremento da esperança de vida, a falência dos sistemas de providência social e o número crescente de pessoas que ao longo das suas vidas profissionais experimentam diferentes tipos de carreiras faz com que assim aconteça.

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Independentemente da idade, precisamos, hoje, de pensar de forma muito diferente das gerações anteriores e de aprender a estruturar a vida de um modo completamente novo. Isto implicará um olhar diferente sobre a formação, a carreira e as nossas relações – criando uma vida gratificante e inspiradora.

Tal significa que estudar aos 30, 40 ou 50 anos será um lugar-comum; deixaremos de trabalhar, não exclusivamente aquando da reforma, mas sempre e quando o entendermos; licenças sem vencimento ou “gap years” passarão a existir de forma recorrente; ter tempo para a família deixará de estar fundamentalmente relacionado com o cuidar dos filhos mas também, e cada vez mais, com o cuidar dos pais e dos avós; outras oportunidades de carreira, outras formas de trabalho (via “downshift” ou empreendedorismo) e de vida acontecerão amiúde. E a experimentação fará cada vez mais parte das nossas vidas.

Até chegar o momento da reforma, é expectável que tenhamos de encarar novas formas de trabalhar. Aparecerão novas funções; o conhecimento que detemos e as competências que dominamos, deixarão de ter relevo. Daí que o que fazemos, onde e como o fazemos, terá de ser reinventado. A formação contínua e a aquisição de novas competências serão incontornáveis.

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Mas o desafio é muito mais do que nos mantermos activos. Numa época em que os holofotes estão colocados nas novas gerações no mundo do trabalho, não podemos deixar de nos questionar sobre o que iremos fazer com todos aqueles que, ao chegarem aos 50, ainda têm mais 20 anos de vida activa pela frente.

Esquecendo o lado político, saliento o papel das organizações e dos seus gestores: urge desenvolver flexibilidade e uma dinâmica que dê respostas alternativas para as necessidades individuais que, ao longo de uma vida, se colocam com diferentes acuidades; urge desenvolver autoconhecimento, uma consciência de si próprio que permita a cada um de nós identificar áreas de oportunidade, antecipar necessidades e gerir as expectativas e motivações de modo a podermos dar sempre o melhor de nós; urge desenvolver a adaptabilidade, a capacidade de gerir a incerteza e a capacidade de aprendermos a aprender.

Saber capitalizar o potencial inexplorado dentro das organizações é o verdadeiro desafio. Seja qual for a idade!

Artigo de opinião publicado na Revista Human Resources n.º 92 de Junho de 2018.

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